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Reafirmando a missão de irmã Dorothy Stang, cerca de 300 pessoas participam da 13ª Romaria da Floresta, em Anapu (PA)

23 de julho de 2018

A 13ª Romaria da Floresta inicia seu terceiro dia às quatro da manhã, relembrando quem um dia lutou em vida por um pedaço de terra e por dignidade, através de intervenções e da mística, bem como de rodas de ciranda. Desde que ocorreu o assassinato de Irmã Dorothy, em Anapu, 16 trabalhadores rurais já perderam a vida na região. Anapu ainda sente o cheiro de conflitos de terras. No município, a poeira pinta as portas que estão fechadas. Nas janelas do medo, a sensação de insegurança existe, a Romaria da Floresta é porta voz do grito por justiça.

“12 de fevereiro de 2005, o corpo da irmã se deitou ao chão”

Cícero gritava, “mataram a irmã, mataram a irmã”, naquele momento o terror se fazia presente. Alguns choravam desesperados ao redor de seu corpo, outros tinham esperança que a irmã ainda estivesse viva, mas temiam se aproximar. Chovia… era o fim de quem dedicou a vida inteira por uma causa, para a vida do povo, da solidariedade.

Em procissão, quem se faz presente reza, canta, entoa palavras de ordem. A elite por aqui, quer manter um projeto avassalador contra os trabalhadores, prendem as terras, acorrentam os sonhos de moradia. O povo exibe solidariedade uns aos outros, exige liberdade, seja pela floresta, pela fome, ou por um pedaço de chão.

Às seis e meia da manhã é feita uma parada em frente à Paróquia Santa Luzia, todos em romaria pediam as bênçãos de Santa Luzia para todos, fortalecendo a caminhada.

Às sete da manhã foi fincada a primeira cruz no chão para lembrar o dia do assassinato de Edinaldo. “Mais uma vítima do latifúndio, que sustenta as chacinas, e nada se faz, nada se fez, existem dois projetos, o primeiro é um projeto de destruição da floresta, o que de mais podre existe no capitalismo. O segundo projeto seria um projeto sustentável, um modelo alternativo de posse de terra”, afirmou Diogo, da Pastoral da Juventude no Xingu.

Mesmo com a morte de Dorothy e a prisão de padre Amaro, agora livre, o povo continua na luta, sonhando um dia quem sabe, que aconteça a civilização do amor. Irmã Dorothy despertou a ira dos latifundiários e empresários a partir do trabalho que fazia, baseado em um lindo projeto, participando das Santas Missões Populares, defendendo a ecologia. Ela tinha um coração enorme e o doou ao povo, sempre incentivando para lutarem por seus direitos.

Irmã Dorothy criou a primeira escola no município, ela acreditava que a educação mudaria a vida do povo, além dos projetos “Gavião” e o “Estabelecimento Assistencial de Saúde” de Anapu.

A segunda parada foi para relembrar o trabalhador Casemiro, assassinado no dia 9 de janeiro de 2018, e fincar a cruz no chão. Casemiro acreditava em um mundo novo, de justiça, sonhava como todos os que se foram, em uma vida digna para sua família. A terceira parada foi para relembrar Leoci de Sousa, assassinado no dia 3 de junho último.

“A gente veio para cá para ganhar um pedaço de terra, só isso, mas só nos trouxe tristeza. Hoje tenho que mais uma vez ver essa cruz com o nome do meu filho, ele só tinha 29 anos. Tem dois suspeitos presos, mas a Justiça não nos fala nada, não sabemos o que fazer daqui para a frente, só quem já perdeu um filho sabe a dor que se sente. Mataram meu filho dentro de casa, meu filho era meu companheiro, minha vida”, afirma Iracir, mãe de Leoci de Sousa.

A Romaria da Floresta é para mostrar para sociedade que os que se foram eram trabalhadores que lutavam por um mundo mais justo, que lutavam apenas por um pedaço de chão.

“PRESENTE”

Poeira pelo caminho

Estradas sem fim.

O barro virou desenho

Regado pela chuva, sem Jardim.

 

Tanta terra aqui se tem

Olho gordo, latifundiários.

Exploradas por alguém

Que as raízes soterradas

Viraram campo minado.

 

Mata, desmatada

Extensão, chão duro

Mata, por nada.

Assassina, por tudo.

 

Na luta, pode demorar a subida

Pesa o vento, acelerado.

Ladeira, sem freio na descida

Coragem, medo esmagado.

 

Por servir ao povo

Derrubaram quem tava de pé.

Tiro certeiro, no coração

Teimosia, não por falta de fé.

Em caminhada, procissão.

 

Os lembram em mística

Canções em coro.

Melodia em prática

“Num” tom de um mundo novo.

 

Atiraram

Nus tiraram

Atira, atira

 

O povo em luta atiça

Atiça caminhando

Clamando por justiça

 

Dedos entre os dedos

Mãos dadas em comunhão.

Dorothy vive

Em nossos corações

 

 

Texto e poema por Rafael Gomes/MAB | Fotos por Thomas Bauer/CPT Bahia

Fonte: Comissão Pastoral da Terra