Mercado, longo período no poder e Igreja | As três faces da Rússia sob Putin

A mão (nada) invisível do mercado, a perpetuação do presidente no poder e sua conveniente aliança com a Igreja Ortodoxa

Após o colapso da URSS, o ex-agente do KGB adotou as pautas conservadoras da liturgia ortodoxa | Foto por Mikhail Klimentyev/Sputnik/AFP

Desde o início da perestroika, reforma econômica de cunho liberal implementada pelo premier soviético Mikhail Gorbachev em meados dos anos 1980, grandes estatais (e fortunas colossais) passaram a ser amealhadas por oligarcas exercendo manobras duvidosas e o mais contumaz tráfico de influência.

Como nos informa o jornalista americano Steven Lee Myers, autor da obra O Novo Czar: Ascensão e reinado de Vladimir Putin (Editora Amarilys, 2018), os casos dos oligarcas Boris Berezovski (1946-2013) e Mikhail Khodorkovski são emblemáticos: Berezovski era ligado aos setores automobilístico e petrolífero, de aviação e telecomunicações; Khodorkovski foi presidente da gigantesca petrolífera Yukos.

Sempre próximos dos círculos de poder, ambos tiveram ascensões vertiginosas que acabaram esbarrando em duelos por influência política e econômica sobre o Estado, o que fez com que Vladimir Putin, então em seu primeiro mandato presidencial (2000-2004), vislumbrasse a queda dos oligarcas. Sob acusações de fraude fiscal e lavagem de dinheiro, Khodorkovski foi condenado, em 2003, a dez anos de prisão. Berezovski conseguiu exilar-se em Londres.

Rumo à democracia?

Steven Lee Myers detalha as precauções tomadas por Boris Yeltsin (1931-2007), quando chegou o momento de o primeiro presidente democraticamente eleito após o colapso da URSS deixar o poder: “Após séculos de governo czarista e depois comunista, a Rússia nunca tinha transferido democraticamente o poder político de um líder para outro.”

“Yeltsin pensou bastante em como assegurar uma transferência de poder que ao mesmo tempo preservasse a transição política do governo soviético e o protegesse dos expurgos vingadores que se seguiram à remoção de todos os líderes desde os Romanov”.

Ao ser eleito presidente sob os auspícios de Yeltsin, em 2000, o primeiro decreto que Putin assinou fora preparado por assessores de Yeltsin. Como nos revela Myers, o documento cedia ao padrinho político de Putin “uma gama de benefícios e privilégios como ex-presidente, incluindo um salário e uma equipe de trabalho.”

“O decreto também cedia a Yeltsin imunidade quanto à Procuradoria, protegendo seus bens e documentos de busca ou apreensão”, o que, efetivamente, blindou Yeltsin de quaisquer processos jurídicos e perseguições políticas futuras.

Durante seu mandato como primeiro-ministro (2008-2012), Putin liderou uma série de negociações junto ao Parlamento para aprovar uma emenda constitucional que, com a aquiescência do presidente-tampão Dmitri Medvedev, prolongou o mandato presidencial de quatro para seis anos. Em 2012, Putin tinha planos de voltar ao poder.

Às vésperas da quarta vitória eleitoral de Putin, que ocorreu em março deste ano – vitória sobre a qual pairam denúncias de fraude a partir das vozes de oposição que encontram muita dificuldade diante do cerceamento imposto pelo Estado –, o único candidato que poderia representar algum risco para a reeleição do atual presidente, o opositor Alexei Navalny, teve sua candidatura impugnada pela comissão eleitoral, devido a uma condenação judicial por desvio de fundos públicos, em um caso de 2009.

Segundo a lei russa, Navalny não poderá voltar a concorrer a um cargo eletivo até 2028.

A César o que é de Deus 

Após o colapso da URSS e sua ideologia comunista, o ex-agente do KGB Vladimir Putin aprofunda cada vez mais a aliança com a Igreja Ortodoxa para forjar um novo ethos de unidade nacional. Em termos históricos, a igreja russa nunca se apartou inteiramente do poder estatal, tanto para canonizar os czares quanto para abençoar suas investidas militares.

Quando os nazistas invadiram a URSS, em junho de 1941, o ditador soviético Josef Stalin (1878-1953) mandou reabrir as igrejas que a Revolução Russa de 1917 interditara para conquistar o coração do povo em favor da defesa sagrada da pátria.

Nesse sentido, Putin vem tomando uma série de medidas em consonância com as pautas conservadoras da liturgia ortodoxa. Em 2013, foi implementada uma lei que proíbe a distribuição de informações sobre a homossexualidade para menores de 18 anos, lei fortemente criticada como homofóbica pela comunidade internacional.

Em seu pronunciamento oficial deste ano no Dia da Mulher, Putin referiu-se à importância das mães para a família, destacando, unilateralmente, o papel da fecundidade feminina para além da igualdade de oportunidades em relação aos homens.

Em 19 de janeiro, com transmissão da tevê estatal, o presidente mergulhou nas águas gélidas do Lago Seliger, aproximadamente, a 400 quilômetros ao norte de Moscou, para celebrar a Epifania ortodoxa, festividade que relembra o batismo de Jesus Cristo nas águas do Rio Jordão.

Quando Napoleão Bonaparte (1769-1821) soube que o czar Alexandre I (1877-1825) era, ao mesmo tempo, monarca e líder da igreja, o generalíssimo francês teria exclamado ao imperador russo: “Ora, mas que conveniente!”

 

 

Por Flávio Ricardo Vassoler

Fonte: Carta Capital

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