Mano Brown: “A periferia está votando em polícia com medo de perder o que conquistou no governo Lula”

Fonte: Revista Fórum | Com informações do Click RBS

De passagem pelo Rio Grande do Sul, para se apresentar na 23ª edição do Planeta Atlântida, o rapper Mano Brown deu entrevista para o Click RBS. Um tanto pessimista e com a costumeira verve solta, ele falou sobre o cenário atual da música e da política e, é claro, sobre os 30 anos dos Racionais, em 2018.

Para ele não há o que comemorar.

“Não há nada para comemorar nesse aniversário de 30 anos dos Racionais. Só há luto. Se vejo como a periferia pensa hoje, como o brasileiro pensa… estou de luto. Quando os Racionais surgiram, lutávamos para ter liberdade para falar, para ter espaços que não tínhamos. Passaram-se 30 anos. E alguns fãs da banda se tornaram conservadores. Muitos, hoje, são de direita. Nossos pensamentos já não batem mais. Não sou contra gay, contra punk, contra candomblé, como pessoas que eram fãs da banda demonstram ser”, disse.

Em tom cáustico, o rapper foi mais além: “Aqueles ideais que o povo defendia, o povo esqueceu. Com aquele discurso que tínhamos em 1990, hoje, os Racionais seriam engolidos pela periferia. Seriam rejeitados. Porque, depois de dois governos Lula e de um governo Dilma, mudou a mentalidade da periferia. Não tem como desvincular os Racionais da política, a banda sempre foi atrelada ao momento político do país. E qual é o momento político do país agora? A periferia passou a ser de direita. O rap virou algo de direita, conservador. Aquele rap da época dos Racionais, hoje, é um rap religioso, moralista, que não conversa com a revolução que precisa ser feita atualmente”, completou.

“Hoje, você é apedrejado por falar de Lula. É linchado na internet, junto à opinião pública. Eu tenho idade suficiente para dizer: vivi vários momentos e vi o Brasil muito mal. Já vi o negro neste país mal a ponto de alisar o cabelo, de clarear a pele, afinar o nariz. Mal a ponto de esconder onde morava, ter vergonha da mãe. A gente não vive mais isso. Hoje, o negro vive o orgulho, e o branco vive a vergonha do que fez. E muitas vezes as pessoas se confundem por isso.”

Ainda sobre o aniversário de 30 anos da banda, Mano Brown reafirma: “Não, 2018 não será um ano de celebração. Celebrar com os seguidores de Bolsonaro me perseguindo? Meus fãs me traindo? Não tem nada para celebrar. É luto, meu parceiro. Os caras que eram fãs, hoje, me perseguem. Me chamam de maconheiro, defensor de bandido, petralha, Lei Rouanet – que nem sei como usa, nunca usei”, afirma.

Para ele, “o pessoal não está merecendo os Racionais, não. Racionais é algo muito verdadeiro, é sangue no olho. É brabo, já pegou em armas. Racionais, para mim, é sagrado. Por mim, não gravava nunca mais. Minha música foi sempre ligada às lutas, ao povo, aos becos e às vielas. Aquele povo para quem a gente cantava não é o mesmo de hoje, aquele povo queria outras coisas”.

No final, ainda mais desesperançado, Brown completa: “A periferia está com muito medo, está votando em polícia porque conquistou as coisas no governo Lula e agora tem raiva de tudo o que soe ameaçador. Não concordo quando o rap critica o funk, quando o outro critica o gay ou o candomblé. Neste momento me sinto minoria. Preciso ter inteligência. Já fui só coração. Hoje, sou coração e cérebro”, finaliza.

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