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Guilherme Boulos: ‘Só governos autoritários gostam de povo que não pensa’

16 de maio de 2018

Aos 35 anos, ele tem como pré-candidata a vice a indígena Sonia Guajajara, outro grande diferencial de sua futura chapa nas próximas eleições

Guilherme Boulos é uma das lideranças do MTST | Foto por Rodrigo Montaldi/DL

Reconhecido como uma das principais lideranças da esquerda no Brasil, o ativista, filósofo, psicanalista e professor Guilherme Boulos, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), é pré-candidato do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) à Presidência da República. Aos 35 anos, ele tem como pré-candidata a vice a indígena Sonia Guajajara, outro grande diferencial de sua futura chapa nas próximas eleições. Confira a entrevista:

Diário – Você acredita que o PSOL terá força política para ocupar a presidência?
Guilherme Boulos – 
É momento de uma novidade política no Brasil. Nossa chapa expressa isso. Somos uma aliança entre partido, movimentos sociais e setores da sociedade.

Ao contrário das alianças feitas no Brasil nos últimos tempos, de partidos que tinham e têm interesses não republicanos, por tempo de televisão, paroquiais, estamos construindo uma aliança de movimentos dos sem teto, indígenas, mídia ninja, juventude, negro, feminista, LGBT, artistas, intelectuais, enfim, uma aliança da verdadeira sociedade brasileira. O PSOL tem a generosidade para ousar a ter uma aliança ampla para disputar o poder.  

Diário – Para mudar é preciso mudar o sistema ­político?
Boulos – 
Sem dúvida. O sistema político brasileiro está falido. Não é possível mudar o Brasil do jeito que está. Presidencialismo de coalizão se tornou um verdadeiro balcão de negócios. De toma lá dá cá.

Diário – O PMDB, por exemplo, nunca sai do poder.
Boulos – 
Esse é um exemplo. Não podemos mais admitir um sistema político que permite que um partido que nunca ganhou a Presidência da República mas chantageia e dá as cartas em todos os governos de presidentes eleitos. Para nós, só faz sentido governar se for para colocar, pela primeira vez, nos últimos 30 anos, o PMDB na oposição. Só faz sentido ser candidato à Presidência se puder apresentar um projeto de governabilidade novo para as maiorias sociais.

Diário – Como o povo?
Boulos – 
Sim, com plebiscitos e referendos periódicos para grandes decisões de governo. As pessoas não podem ser chamadas à política só para apertar um botão a cada quatro anos. O cidadão brasileiro precisa entrar no jogo e decidir sobre as questões fundamentais do País.

Diário – Será que essa consciência virá?
Boulos –
 Esse sistema está fazendo com que as pessoas nem queiram mais apertar o botão para votar. As pessoas estão desiludidas com a política e com razão. A atual forma de fazer política não nos representa, não representa a maioria. O Estado Brasileiro foi capturado por 1%, sequestrado pelos bancos e pelos interesses econômicos. Eles financiam as campanhas eleitorais e depois dão as cartas aos eleitos porque foram seus financiadores. Os eleitos não atendem os eleitores e a sociedade brasileira, mas seus financiadores. É assim que se criam as máfias do poder, controlando o Estado Brasileiro. Ou a gente enfrenta isso ou não faz sentido fazer política no Brasil.

Diário – Os bancos mandam no Brasil. Dá para governar com eles?
Boulos –
 Existe uma ‘república dos bancos’. Se a gente quiser eleger um presidente para servi-los, é melhor cancelar as eleições, reunir em uma mesa os principais bancos e dar a eles o poder de decidir quem será o presidente. Se é para ser uma democracia de mentira, então faz logo de maneira escrachada. Se queremos uma democracia de verdade, temos que governar para o povo e não para servir a bancos. Nosso governo não será baseado no mercado, mas pelo que o povo precisa. Se os bancos se sentirem insatisfeitos, que sigam seu rumo.

Diário – Mas banco é uma das ferramentas do sistema capitalista?
Boulos – 
Sim, mas temos bancos públicos importantes no Brasil. Caixa Econômica Federal (CEF), Banco do Brasil. Temos o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o maior de fomento do mundo. Eles precisam ser mais valorizados. O que não pode é o Brasil ser um paraíso fiscal. Não podemos ser Bahamas, Ilhas Cayman. Não podemos nos subordinar a isso. Temos uma taxa de juros selvagem. Os bancos fazem o que querem. Temos que regular o sistema financeiro. Temos que tributar mais os bancos. Atualmente, a sociedade perde e os bancos ganham. Basta ver os lucros dos bancos no primeiro trimestre deste ano e dos três últimos anos de crise. O País está afundado num buraco, com 13 milhões de desempregados, renda dos trabalhadores caindo e os bancos com lucros recordes.

Diário – Você acredita que os privilégios aumentam a desigualdade social?
Boulos –
 Privilégio é o contrário de direitos. Quem defende direito social não pode admitir privilégios. Temos que enfrentar quem controla o Brasil a partir do dinheiro. Não podemos ter uma sociedade em que seis bilionários possuem mais riquezas do que 100 milhões. Ser a sétima economia do mundo e estar entre os 10 países mais desiguais. Isso é uma vergonha.

Precisamos enfrentar os privilégios do Estado Brasileiro. Não é admissível que um juiz ganhe R$ 33 mil e um professor ganhe R$ 2.500,00. Que os supersalários sejam complementados por auxílios moradia, toga, terno, enfim. Tem muita gente ganhando acima do teto constitucional. Temos que dar transparência ao Estado para enfrentar os privilégios em todos os poderes.

Diário – Tem um sistema ideal?
Boulos –
 O que proporciona igualdade de oportunidades. Para que ele se sustente, é preciso que a decisão seja sempre do povo.

Diário – Você acredita que existe uma corrupção consentida e seletiva, é isso?

Boulos – Isso pouco se comenta. Existe a corrupção discutida e enfrentada e isso deve ser feito. Mas existe outra que todos se calam, que é a corrupção, sobretudo, dos grandes interesses econômicos se apropriando do Estado. A chamada porta giratória.

Diário – Me dá um exemplo?
Boulos –
 Henrique Meirelles era presidente do Banco de Boston e foi direto para o Banco Central em 2003. Era presidente do Conselho da JBS e foi direto para o Ministério da Fazenda. Nelson Souza era um dos principais executivos da Shell no Brasil e se tornou consultor da Petrobrás. O ministro da saúde Ricardo Barros teve sua campanha financiada pelos planos de saúde privados.

Ou seja, quem essas pessoas vão atender? Vão atender os interesses do Brasil ou de seus ex-patrões? Ricardo Barros vai fortalecer o SUS (Sistema Único de Saúde) ou fomentar planos privados? Souza vai defender a maior empresa pública do País (Petrobrás) ou da concorrente Shell? Isso é corrupção. Essa é aporta giratória que me refiro. Precisamos impedir que a ‘raposa cuide do galinheiro’, que haja esse transição absurda entre público e privado.

Diário – Será que não temos quadros melhores, mais imparciais?
Boulos –
 Temos grandes. Na ciência e na tecnologia, nos movimentos sociais, na intelectualidade, nas artes, nos movimentos sindicais, nas comunicações. Não falta gente íntegra e qualificada. O problema é que o critério não é a qualidade, mas a indicação para ganhar apoio político e se sustentar no poder. Ou pior, indicações impostas pelos grandes setores econômicos, que controlam as agências reguladoras e ministérios.

Diário – A reforma trabalhista foi prejudicial?
Boulos – 
Fez o Brasil retroceder 80 anos. Nossa legislação de 1943, feita pelo governo Getúlio Vargas, que precisava de modernização porque surgiram novas formas de trabalho, mas o que ocorreu foi que se confundiu modernização com retirada de direitos. Destruíram a CLT (Confederação das Leis Trabalhistas). Tiraram direitos conquistados historicamente pelos trabalhadores. Nem a Ditadura Militar, em 21 anos, mexeu na CLT.

Diário – Isso ocorreu porque os representantes se afastaram do povo?
Boulos – 
Sim. 70% do povo estava contra a reforma trabalhista. No entanto, deputados e senadores votaram a favor dela e viraram as costas para a sociedade. Por isso, nossas primeiras medidas, caso me torne candidato e for eleito, será a revogação dessa reforma.

Diário – Dá para governar com plebiscitos e referendos?
Boulos – 
Eu estou para conhecer uma forma melhor do que a democracia. Dar poder ao povo é democracia. Por que esse medo do povo decidir? Qual o problema em chamar o povo para as grandes decisões nacionais? Muitos países do mundo já fazem isso. Suíça, Austrália, Estônia, Uruguai, Bolívia, os Estados Unidos. Me falaram que isso seria ingenuidade minha.

Ora, não tem coisa mais ingênua do que acreditar que vai governar diferente fazendo as coisas do mesmo jeito. Se queremos governar diferente, temos que fazer diferente.

Diário – A Reforma Previdenciária empacou. A Tributária é importante para combater a desigualdade. É isso?
Boulos –
 Sim. É central para enfrentar a desigualdade no Brasil. Hoje, quem tem menos paga mais e quem tem mais paga menos. O IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores), por exemplo. Quem tem carro paga. Quem tem helicóptero e jatinho não paga um real de imposto. Lucros e dividendos. Wesley Batista recebeu R$ 100 milhões da JBS e pagou R$ 340 mil de impostos (0,3%). No entanto, o trabalhador da faixa mais baixa de imposto de renda paga 7,5% de imposto – mais de 20 vezes mais que o Wesley Batista. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostrou que os 10% mais ricos do Brasil têm uma incidência sobre sua carga tributária de 20% de imposto enquanto os 10% mais pobres têm 53%. Ou seja, quem tem menos, paga mais.

Quem sustenta o Estado Brasileiro é o povo pobre e classe média. Quem fica com o discurso que a ação do Estado tem que diminuir são os ricos que não pagam nada para ­sustentá-lo. Se eu governar o País, vou acabar com essa farra.

Diário – Qual foram os erros dos governos petistas?
Boulos – 
Não ter enfrentado tudo isso. Não ter contribuído para a democratização das comunicações. Não ter feito as reformas agrária e urbana. Não ter enfrentado problemas estruturais de verdade. Os governos Lula e Dilma foram de conciliação e isso só era possível quando o crescimento era de 4% ao ano. Quando a País está afundado em uma das maiores recessões de sua história, não tem margem de manobra de conciliação entre política e economia.

Diário – Como você avalia a questão do Lula?
Boulos – 
Foi uma enorme injustiça. Ele sofreu uma condenação sem que fosse apresentada uma prova concreta. Eu não vi um extrato bancário, uma mala de dinheiro, gravação comprometedora, enfim. O MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) provou o tríplex era bem mais modesto do que se dizia.

No caso do Michel Temer há gravações no Palácio com o Joesley Batista, tem seu principal braço direito com mala cheia de dinheiro e o cara tá governando o Brasil. Isso não faz sentido. É evidente que houve uma medida casuística do Judiciário para retirá-lo do processo eleitoral.

Deram um impeachment no Brasil dizendo que a crise econômica e a corrupção iriam acabar. Dois anos depois, o País está afundado na crise e a corrupção é endêmica e generalizada. O Governo Temer é o que representa o projeto do 1% e as piores e velhas práticas de corrupção do Estado. A distribuição de emendas para salvá-lo foi escandalosa. Não tinha dinheiro para construir casa, para comprar remédio, se gastou bilhões com emendas parlamentares para comprar votos. Isso o Brasil todo viu. É um escárnio.

Diário – O racismo é estrutural no Brasil?
Boulos –
 Não é só um comportamento é estruturante. Temos uma dívida histórica com os negros. A base da pirâmide no Brasil são as mulheres negras. São as que têm os menores ­salários e que sofrem mais violência doméstica. Os negros são os que mais sofrem com a violência policial. O extermínio da vereadora Marielle foi um exemplo de como não se tolera mulheres negras na política. Na Baixada temos o Movimento Mães de Maio. Estamos ­assistindo o ­genocídio da juventude pobre e negra nas periferias. Temos que desmilitarizar as polícias.

Diário – Educação e Saúde
Boulos – 
Temos que conciliar investimento e qualidade. Só 5,5% do PIB (Produto Interno Bruto) é destinado à Educação. Nosso Sistema Nacional de Educação foi aprovada, mas não regulamentado. Ele prevê o custo-aluno-qualidade com investimentos de R$ 50 bilhões ao ano para a Educação Básica. Dá para garantir piso nacional para os professores, qualidade técnica e mais creches. Educação não é gasto é investimento.

Paulo Freire sempre trabalhou a dimensão humana e solidária da educação. Tem que ser crítica. Temos que formar trabalhadores-pensadores. Só governos autoritários e injustos gostam de povo que não pensa. É preciso um debate nacional.

Na saúde, vamos fortalecer o SUS de verdade. Precisamos melhorar os serviços. Gastamos somente 3,8% do PIB quando em outros países se ­gasta 8% em modelos universais de saúde. Dinheiro público tem que ir para o SUS. Vamos acabar com a farra dos planos de saúde.

Diário – Ter uma indígena como pré-candidata a vice é um diferencial ou um resgate?
Boulos – 
Os dois. Um resgate da luta de resistência mais tradicional de nosso País e um diferencial. A Sonia Guajajara será a primeira indígena a estar numa chapa presidencial na história de nosso País e eu serei o mais jovem, pois tenho 35 anos. Estamos construindo algo novo. Nossa pauta será o respeito a todos os povos. E queremos o apoio de todo o campo ­progressista brasileiro.

 

Por Carlos Ratton

Fonte: Diário do Litoral