Guilherme Boulos e Sônia Guajajara 2018 | Bandeiras vermelhas, cocar e nada de mercado

No lançamento da candidatura de Guilherme Boulos à Presidência, sem teto, indígenas e socialistas só pouparam o ex-presidente Lula

Boulos atraiu ao local uma pequena multidão de filiados ao partido | Foto por Edilson Dantas/Agência O Globo

Realizada em um auditório no 23º andar do Hotel Excelsior, no centro de São Paulo, a Convenção Eleitoral do PSOL, que homologou a candidatura de Guilherme Boulos e de Sônia Guajajara à Presidência da República, atraiu ao local uma pequena multidão de filiados ao partido, militantes de vários movimentos sociais – em especial os Sem-Teto, dos quais Boulos é líder – e simpatizantes do discurso combativo dos candidatos. Não formavam uma multidão de estádio de futebol, mas estavam em quantidade suficiente para causar uma pane em um dos dois elevadores que serviam os visitantes e produzir uma fila para usar o outro. Quem queria subir para ver ao vivo Boulos e sua candidata a vice (chamada pelo partido de “copresidente”) tinha que amargar bons dez minutos de espera antes da curta viagem até o topo.

O auditório do Hotel Excelsior estava tomado por um mar de camisetas e bandeiras vermelhas, a maior parte delas de militantes do MTST, o Movimento dos Sem Teto, do qual Boulos é coordenador regional em São Paulo. Em meio a eles, podia-se ver pelo menos um cocar, ornamentando a cabeça de uma ou outra liderança indígena, vinculada à vice. Além de um outdoor com a foto de Boulos e de Sônia no fundo do palco, havia também um banner com a foto da vereadora Marielle Franco, singela homenagem à parlamentar do PSOL no Rio, assassinada em 14 de março.

“Não queremos chegar ao poder a todo custo, temos projeto temos programa”

O nome de Marielle seria lembrado, repetido e chamado muitas vezes por outros parlamentares do partido que vieram a São Paulo para acompanhar a convenção. O deputado estadual Marcelo Freixo, do Rio, lembrou que a colega foi “executada” e até hoje, quatro meses depois, ninguém foi indiciado ou preso. Segundo Freixo, foi um grupo político que se perpetuou no poder o responsável pela morte da vereadora. “Temos que mudar isso”, discursou ele.

Na rodada de discursos, o deputado federal Chico Alencar, que vai concorrer ao Senado, e seu colega deputado Ivan Valente seguiram pelo mesmo caminho, enfatizando em seus discursos as bandeiras do partido. “Não queremos chegar ao poder a todo custo, temos projeto temos programa”, gritou Valente. Nenhum deles, no entanto, se comparou com a ex-prefeita de São Paulo, hoje deputada federal Luiza Erundina, aplaudida de pé pela platéia. “Só tem uma chapa de esquerda nesse país”, decretou ela no auge de seu discurso, demonstrando uma vitalidade invejável aos 83 anos de idade.

Como acontece com praticamente todos os partidos, a convenção do PSOL foi uma mera formalidade para homologar a candidatura de Boulos e Sônia e também para sacramentar a aliança com o PCB. Mas houve espaço para mais do que discursos políticos. Houve uma cerimônia indígena, puxada pela “copresidente” antes de seu discurso. Sônia é a primeira indígena candidata em uma chapa que disputa a Presidência da República. Ela defendeu não só os direitos de indígenas, mas também reforçou a necessidade de se combater o agronegócio e outros grupos que, segundo ela, “estupram a Mãe-Terra”. E, fazendo eco a um outro mote do partido, disse: “Não vão ser as pesquisas que vão nos impedir de ir às ruas”.

Quando Boulos finalmente assumiu o microfone, a noite estava caindo. Reafirmando o que disse em várias entrevistas e debates, disse que vai revogar todos os atos do governo Michel Temer. Deixou claro em quem ia bater. “O atraso se chama Bolsonaro” disse, sobre Jair Bolsonaro, do PSL, líder nas pesquisas. “O mercado representa Geraldo Alckmin”, afirmou. (No ambiente do Excelsior, “mercado” era equivalente a um palavrão). Boulos guardou sua solidariedade para o ex-presidente Lula, preso em Curitiba. Defendeu sua liberdade e candidatura pelo PT – ainda que saiba que, se Lula pudesse concorrer, suas chances como candidato do PSOL seriam ainda menores. Foi sonoramente aplaudido pela plateia.

Boulos é um novato na política partidária – entrou para o PSOL apenas em março, já com a intenção do partido de fazê-lo candidato a presidente -, mas demonstrou cacoete de político. Experiente em discursos, ratificou bandeiras antigas como a legalização do aborto, mudanças na política habitacional, a demarcação de terras indígenas e outros temas considerados, segundo ele, tabus, como a desmilitarização da polícia. “Não vamos ter medo de enfrentar e discutir essas questões”, disse. Apesar do discurso afirmativo e apontando sempre para a vitória, o candidato, em tom de brincadeira, chegou a dizer logo no início de seu discurso, quando comentou as confusões em torno do seu nome e de sua vice ao longo da campanha: “Ganhar eu não sei se a gente vai, mas que teremos boas histórias para contar, ah, isso vamos ter!”, disse.

 

 

Por Alessandro Giannini

Fonte: Revista Época

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