Gigante do etanol que investe em Mato Grosso queimou casas e destruiu escola indígena no Paraguai

Dirigida pelo brasileiro José Odvar Lopes, a Inpasa fornece para Petrobras e Esso; acusada de contrabando de açúcar, empresa investirá R$ 500 milhões em Mato Grosso, com incentivos fiscais; outro conflito relacionado ao usineiro teve morte de camponês

Educação sob escombros | Divulgação

Quinze alunos e um professor chegaram às aulas, na comunidade indígena 3 de Julio, em Itakyry, departamento de Alto Paraná, e encontraram a escola destruída. Um adolescente foi ferido a bala pelos seguranças da Industria Paraguaya de Alcoholes S.A., armados com rifles e escopetas. Depois, as casas Awá Guarani foram incendiadas.

Um vídeo do canal Telefuturo mostra homens, mulheres e crianças zanzando diante das casas em chamas. Vinte famílias tinham sido convencidas a arrendar as terras para a Inpasa, empresa que fornece etanol para Esso e Petrobras. Cinco famílias que ocupavam 350 hectares não aceitaram e foram expulsas.

Tudo isso ocorreu em maio de 2017. Em novembro, o governador mato-grossense Pedro Taques (PSDB) recebia em Cuiabá o diretor-presidente da Inpasa, o brasileiro José Odvar Lopes, para anunciar “a maior usina de etanol de milho do país” – superando aquela inaugurada em agosto pelo presidente Michel Temer em Lucas do Rio Verde, também em Mato Grosso: “Temer inaugura, no MT, usina de etanol que pertence a conselheiro de Trump“.

Essa usina está sendo construída numa área de 150 hectares pela Odebrecht, em Sinop, com incentivos fiscais. Para atrair o investimento de R$ 500 milhões, o governo estadual decidiu diminuir o ICMS de 25% para 7%. Taques recebeu Lopes e outro executivo da Inpasa no Palácio Paiaguás. E ficou de visitar uma das usinas do grupo no Paraguai.

“Mesmo em um momento de crise, tem gente que acredita em Mato Grosso”, afirmou após a reunião o deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária. “Para o mundo inteiro, isto mostra que o Brasil faz um golaço, capaz de desenvolver sendo ecologicamente correto”, completou outro político presente na reunião, o deputado estadual Dilmar Dal Bosco (DEM).

No Paraguai, o presidente Horacio Cartes inaugurou em abril a segunda fábrica da Inpasa no país, um investimento de US$ 80 milhões em Guayaibí, no departamento de San Pedro. A produção de etanol nessa planta exige um plantio de milho em pelo menos 125 mil hectares. A primeira fábrica fica em Canindeyú – onde a corporação protagoniza conflitos com camponeses.

Sobreposição com terras indígenas

O presidente do Instituto Paraguayo del Indígena (Indi), Aldo Saldívar, prometeu medidas jurídicas contra a empresa, em relação ao despejo no Alto Paraná. “É inaceitável que civis ajam como oficias da lei”, afirmou um dia após o ataque, em entrevista à Radio Nacional del Paraguay. O Indi adquiriu 2.638 hectares na região, conhecida como Colonia Colorado.

A empresa alega que um líder indígena, Luciano Villalba, fizera um acordo para a retirada das famílias, que se mudariam para o departamento de Canindeyú. Segundo o Indi, porém, essas terras não podem ser doadas, vendidas ou arrendadas “sob nenhuma circunstância”.

Segundo o vice-presidente da Inpasa, Enzo Olmedo, a empresa adquiriu 800 hectares na região em 2011 e 2012. “Desde então existe uma sobreposição com os títulos do Indi”, afirmou. Ele negou que a empresa tenha seguranças armadas e que tenha feito despejo sem ordem judicial.

José Odvar Lopes e Enzo Olmedo são presidente e vice-presidente do Prestigio Group, desde 2015 o distribuidor no Paraguai da marca de automóveis alemã Audi.

Camponês assassinado em Caaguazú

O conflito com indígenas não é o único envolvendo empresas de Lopes. Durante o breve governo de Federico Franco, em junho de 2013, foi assassinado em Mariscal López, departamento de Caaguazú, o colono brasileiro Antônio Carlos Moreira dos Santos. Ele se recusava a vender os 40 hectares de terras na colônia Laterza Cué para a Agrícola Entre Ríos.

Integrantes do Movimiento Campesino Paraguay (MCP) pensaram em levar o corpo de Santos até a sede da empresa, a quem acusavam pela morte. “São responsáveis diretos por essa matança”, afirmou uma das lideranças, Félix Benitez. Ele disse que a polícia apoia os despejos violentos – 40% dos camponeses tinham abandonado a região – e ignora o desmatamento promovido pelos usineiros.

A empresa exportadora Entre Ríos pertence a José Odvar Lopes. É ela quem faz o fazendeiro aparecer em 78º lugar na lista dos maiores latifundiários do Paraguai, divulgada pela Oxfam em 2016, com 9.950 hectares. Nesse mesmo ano Inpasa e Entre Ríos – associada também a uma empresa chamada Bioenergy – conseguiram um certificado de biomassa sustentável.

Duzentas famílias camponesas foram despejadas do assentamento 1º de Noviembre, em maio de 2016, em Laterza Cué. O efetivo de 1.500 policiais chegou com helicópteros e destruiu os móveis dos moradores, alguns deles no local havia 40 anos. “Parece que a empresa de Lopes não tem humanidade e o Indert (Instituto Nacional de Desarrollo Rural y de la Tierra) não tem compaixão com os pobres”, declarou o padre Ignacio Espínola.

O conflito em Laterza Cué começou em 1967, informam os jornalistas da E’a, durante a ditadura, quando se instalou no local – que pertencia ao empresário Mario Laterza, por isso Laterza Cué, ex-Laterza – o grego Euthmios Gregorios Ioannidis. Ele ficou por lá até 2001, quando fugiu do país após ser acusado de assassinar o intendente de Mariscal López, Rubén Acosta.

Essa história se conecta com o primeiro relato do eixo Empresas, na série De Olho no Paraguai: “Uma história de evasão fiscal, desmatamento, contrabando, ostentação e até estupro”. É que os 3 mil hectares vendidos pelo grego a José Odvar Lopes, em 2002, foram intermediados pelo político paraguaio Rojas Borja e pelo brasileiro Joacir Alves, dono da Diagro S.A.

Uma acusação de contrabando

Em maio de 2014, o Ministério Público paraguaio denunciou Jose Odvar Lopes por contrabando de 1.969 toneladas de açúcar, encontradas sem identificação de origem na sede da Inpasa em Canindeyú. A procuradora Carmen Gubetich de Cattoni foi acompanhada, durante a operação, pelo vice-ministro de Comércio, Pablo Cuevas.

Os advogados da empresa sustentaram que a carga tinha sido comprada da empresa Comvence SA, que por sua vez comprara da Azucarera Iturbe. Semanas depois, descobriu-se que a mercadoria na Iturbe era roubada.

A novela continuou. Em junho daquele ano, parte do açúcar inicialmente apreendido foi minguando: primeiro para 1.500 toneladas, depois 1.200, por fim 500. A empresa alegou que, conforme decisão judicial, o produto podia ser utilizado.

Três anos depois, em junho do ano passado, o motorista Roberto Román Troche Ojeda foi condenado a seis meses de prisão por contrabando. Conforme o relato do Última Hora, ele conduzia um caminhão com 27 toneladas de açúcar, em novembro de 2013, quando foi flagrado com a carga ilegal.

Ele contou que carregara a mercadoria na Azucarera Iturbe, no departamento de Guairá, para transportá-la até a sede da Inpasa em Nueva Esperanza, Canindeyú. O procurador, porém, não processou nenhum dono de empresa, nem mencionou o nome das duas corporações.

Casal Lopes tem fazendas no Brasil

Ao contrário de outros personagens da série De Olho no Paraguai, José Odvar Lopes tem relativamente poucas referências no Brasil – salvo a recente incursão usineira no Mato Grosso. No país vizinho é mais presente: em 2016, ele participou da Agro Expo Coopasam, uma feira do agronegócio realizada no Alto Paraná.

Do outro lado da fronteira, no Paraná, José Odvar e sua mulher Magnólia de Carvalho Lopes são alvos de uma penhora de imóveis em Umuarama, por causa de uma dívida que vinha desde 1998. Sócio do Umuarama Country Club, Lopes tem fazenda em Perobal, um município vizinho no noroeste paranaense. O casal também possui terras em Iguatemi (MS).

 

 

Por Alceu Luís Castilho

Fonte:De Olho nos Ruralistas

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