“Eu vivia na escuridão”, diz agricultora que aprendeu a ler com método cubano
Fonte: Brasil de Fato
Por Cristiane Sampaio* | Edição: Camila Maciel e Vívian Fernandes | Fotografia: Leonardo Milano/Mídia Ninja
Essa realidade se transforma à medida que novas pessoas ganham assento em uma das turmas do Sim, Eu Posso. No segundo semestre de 2017, teve início a segunda etapa do projeto, com mais de 20 mil alunos distribuídos em 15 municípios. Na primeira jornada, em 2016, cerca de 75% dos 9.482 inscritos encerraram o curso alfabetizados.
“A vontade é metade da viagem”
Com 48 anos de agricultura, Raimundo estudou apenas uma vez na vida, na adolescência, quando teve a oportunidade de aprender o abecê com uma professora particular. Mas, sentindo todo dia o peso da enxada, não conseguiu ir além, e só agora pisou numa sala de aula pela primeira vez. “Praticamente, eu não sei nada, mas tenho vontade de aprender”, vibra.
O que ele vai fazer depois que concluir os oito meses do curso de alfabetização? Escrever um livro sobre a história do município de Itaipava do Grajaú, onde nasceu e se criou. “Ainda está bem longe [disso acontecer], mas a vontade é a metade da viagem, aí eu vou lutar pelo resto”, diz, ensinando todos ao redor.
Companheirismo
Todo dia eles saem de casa com a roupa bem passada e mochila nas costas para assistir às aulas do Sim, Eu Posso. “Nós somos os primeiros que chegam e os últimos que saem”, gaba-se Geni, que não pôde estudar quando jovem porque precisava ajudar a mãe a tirar o sustento de casa. “Tinha muita vontade, mas não tinha tempo, aí chegou o momento em que sou estudante também. Tudo tem o dia”, celebra a aposentada.
Com uma origem tão pobre quanto a dela, Miguel não contava com a possibilidade de ainda conseguir estudar, mas hoje, com apenas poucos meses de aula, já comemora o feito de escrever a própria assinatura, estampada no título de eleitor recém-tirado. “Eu fico muito satisfeito, alegre”, diz, exibindo o documento.
Já o medo, aquele que quase a impede de iniciar os estudos, ficou no passado, na retaguarda da vida, para onde Dora não pretende voltar. “Só vou daqui pra frente agora, fazendo mais e mais cursos”, avisa, espiando o futuro.
*A repórter viajou com apoio do Governo do Estado do Maranhão e do MST


