Entrevista | Cultura do ódio e ‘fake news’ levaram a ataques de brasileiros a venezuelanos

Mentiras sobre onda migratória resultou em covarde ataque de brasileiros contra um acampamento localizado na fronteira, no último sábado (18)

Onda de xenofobia e violência ocorreu em Pacaraima | Foto: EBC

Deixou de ser novidade a onda migratória de Venezuelanos vindos para o Brasil. A maioria dessas pessoas busca tratamento médico e trabalho – condições mínimas para levarem suas vidas com dignidade.

Contudo, deixou de ser novidade, também, a revolta de brasileiros que se dizem prejudicados por imigrantes acampados “na porta de suas casas”. Essa onda de indignação coletiva culminou neste sábado (18) em um covarde ataque de grupos locais contra um acampamento localizado na fronteira com a Venezuela.

A onda de xenofobia e violência ocorreu em Pacaraima, a 215 km de Boa Vista. O município é tido como a porta de entrada dos venezuelanos no Brasil e segundo a Prefeitura 1,5 mil imigrantes moravam nas ruas da cidade.

O caso passou a ocupar os noticiários depois que Raimundo Nonato de Oliveira, de 55 anos, foi assaltado e agredido por um suposto grupo de venezuelanos na noite de sexta-feira.

Após o ocorrido, moradores da cidade atacaram os refugiados e a confusão se instaurou. Durante o tumulto a BR-174, que liga Boa Vista ao município, ficou bloqueada com pneus e fogo por cinco horas.

Para entender o assunto, Nocaute entrevistou o professor de História pela Universidade Federal de Roraima, Fábio Almeida, de 43 anos. Ele foi presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRR, atuou em movimentos sociais, foi secretário de saúde do município de Cantá e superintendente da Funasa. Hoje é candidato ao governo de Roraima pelo Psol.

Em suas palavras “o governo não enfrenta o problema social que a imigração traz. Ou seja, o estado encontra dificuldades históricas na oferta de serviços públicos. Para se ter uma ideia, nos últimos 30 anos nós temos uma única maternidade para atender uma população de 500 mil habitantes, nós temos um único hospital de grande porte – de alta complexidade – para atender uma população de 500 mil habitantes”. Ainda segundo Almeida, “o subfinanciamento dos investimentos de saúde, que a população de Roraima identifica como o principal problema da imigração venezuelana, já ocorria antes da ampliação dessa imigração, a partir de junho de 2017”.

Confira a entrevista:

Estamos ouvindo bastante sobre a entrada de venezuelanos no Brasil. Inclusive hoje é destaque no UOL: “Venezuela pede ao Brasil que proteja venezuelanos do ataque de brasileiros”. Qual é sua visão sobre o assunto, qual seria a causa do problema e a possível solução para o caso?

Nós tivemos agora, em 2017, principalmente após o bloqueio econômico dos Estados Unidos à Venezuela, um aumento significativo do número de imigrantes venezuelanos que vêm para Roraima. Essa imigração ampliou os problemas sociais que nós enfrentávamos dentro do estado; de acesso aos serviços públicos de saúde, de educação de violência – nós vínhamos desde 2006 com a ampliação dos números de casos de roubos e assaltos, principalmente com a chegada das facções criminosas que são organizadas no restante do país dentro do sistema prisional local.

Então, essa imigração aumenta consideravelmente e nesse processo nós tivemos um trabalho ruim da imprensa local, principalmente esses programas policialescos de televisão e rádio que incentivaram a cultura de ódio e identificação dos problemas sociais que nós enfrentávamos historicamente dentro de Roraima na figura do imigrante venezuelano.

Isso criou uma cultura de ódio em que a solução para o problema é a expulsão dos venezuelanos e a sociedade passou a ter essa perspectiva, o que vem eclodindo em alguns atos isolados.

Há 60 dias nós tivemos um problema no município de Mucajaí, onde a população destruiu todo um abrigo de imigrantes que existia nesse município e ontem pela manhã eclodiu por uma situação de violência que, segundo a imprensa, envolve venezuelanos contra um comerciante local. A população resolveu fazer justiça pelas próprias mãos – agredindo, expulsando os venezuelanos de Pacaraima – o que gera toda uma problemática social e um momento de crise com a nossa fronteira com Roraima.

Nós acreditamos que sem diálogo nós não vamos conseguir solucionar o problema da imigração venezuelana. O governo brasileiro deveria já ter estabelecido um canal de diálogo com o governo da república bolivariana da Venezuela a fim de que nós pudéssemos encontrar soluções em conjunto para o problema social que aflige esse povo, que imigra em busca de melhores condições de vida, tendo em vista a crise política e econômica que a Venezuela vive hoje.

Alguns dados do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) são importantes – e que infelizmente o governo federal e o governo local estadual não levam em consideração. Segundo o ACNUR, 17% desses imigrantes buscam serviços de saúde. Havia um compromisso do governo federal de implantar um hospital de campanha – apesar do governo já ter gasto 190 milhões de reais na construção de abrigos, mas 85% desses recursos estão sendo gastos exclusivamente com movimentação de tropas, com estruturação desses abrigos.

Além disso, 48% desses venezuelanos que estão imigrando gostariam de ir para outros países que falassem castelhano em virtude da barreira linguística que nós temos e da dificuldade que essas pessoas têm de comunicação no Brasil.

Nós acreditávamos que o governo brasileiro deveria pautar esse tema tanto na Organização dos Estados Americanos (OEA) quanto na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Quais são os países que poderiam receber venezuelanos e a quantidade de venezuelanos que poderiam ser recebidos, a fim de que, nós pudéssemos ajudar essas pessoas a encontrarem melhores condições de vida?

Infelizmente o governo brasileiro se omite. Atua de forma falha e ineficiente na solução desse problema da imigração venezuelana. E na minha opinião, e na opinião do Psol de Roraima, o diálogo é a solução para o início da solução desse problema que nós enfrentamos – tendo em vista que Boa Vista é uma capital pequena e com uma estrutura econômica incipiente, baseada no setor de serviços, o que dificulta o acesso dos venezuelanos ao trabalho, porque nós já temos uma população desempregada de alta densidade aqui dentro da nossa cidade e do nosso estado.

Então o que está acontecendo? É o total descaso do governo com a situação?

O governo não enfrenta o problema social que a imigração traz. Ou seja, nós temos dificuldades históricas na oferta de serviços públicos aqui em Roraima. Para se ter uma ideia, nos últimos 30 anos nós temos uma única maternidade para atender uma população de 500 mil habitantes, nós temos um único hospital de grande porte – de alta complexidade – para atender uma população de 500 mil habitantes.

Então, o subfinanciamento dos investimentos de saúde, que a população de Roraima identifica como o principal problema da imigração venezuelana, ela já ocorria antes da ampliação dessa imigração, a partir de junho de 2017.

Você já não conseguia acesso e com a chegada dos imigrantes venezuelanos, esse acesso foi dificultado. Mas o problema é a falta de gestão pública, falta de investimento. Para se ter uma ideia, nós temos hoje uma ampliação no número de alunos na nossa rede de ensino, tanto do fundamental quanto do ensino médio, de jovens venezuelanos e crianças venezuelanas, em que o governo federal não aceitou computar extraoficialmente no Censo essas crianças, ou seja, nós estamos recebendo recursos do governo federal para merenda escolar para manutenção das escolas com o Censo de 2017 sem a computação dos alunos venezuelanos que entraram esse ano. Há um subfinanciamento em virtude da imigração e há também a ausência de políticas efetivas.

Em minha opinião, tendo em vista a atual conjuntura geopolítica brasileira, o alinhamento do governo brasileiro com os Estados Unidos e a oposição americana ao governo bolivariano da Venezuela, o governo brasileiro atua de forma a manter esse processo imigratório e a manter uma crise no estado de Roraima, contando diretamente com o apoio da imprensa local que cultua esse discurso de ódio, violência e agressão.

Tanto que toda a imprensa roraimense cobra o fechamento da fronteira – um assunto delicado internacionalmente. Algo que causa complicações diplomáticas.

Alguns rumores que me chegaram ontem da Venezuela de que no município de Santa Elena de Uairén – município que faz fronteira viva com o município brasileiro de Pacaraima – nós tivemos também episódios de retaliação contra brasileiros que lá estavam.

Nós também temos uma população brasileira vivendo na Venezuela, que trabalha na Venezuela, que tem negócios na Venezuela. Então, os fatos ocorridos em Pacaraima começam a ter repercussão direta com os brasileiros que vivem na Venezuela.

E a omissão do governo é o que nos leva a viver essa situação no estado de Roraima.

Na sua leitura, os venezuelanos que vem para o Brasil são violentos? Eles chegam ao país com qual propósito?

Não. Grande parte dessas pessoas estão imigrando em busca de melhorar sua condição de vida. O acesso à alimentação hoje na Venezuela é muito complicado, tendo em vista a estrutura que o governo venezuelano adotou de comercialização de produtos alimentícios. Nós temos um povo que vem em busca de melhores condiçõe de vida.

Lógico que entre essas pessoas você pode encontrar indivíduos envolvidos em crimes, em crime organizado dentro da Venezuela. Ultimamente o estado brasileiro – e até saiu em algumas matérias nacionais – divulgou um comunicado dizendo que o número de crimes de venezuelanos aumentou em mais de 100% aqui em Roraima. Acontece que se você for comparar os números absolutos você tinha 10, 12 envolvimentos de venezuelanos antes desse fluxo imigratório em processo de crimes contra o patrimônio, em crimes dentro do estado.

Então, se ampliarmos as estatísticas em mais de 100% o número absoluto não representa um crescimento relativo de violência. Porque se tem um número muito reduzido de venezuelanos envolvidos com a criminalidade. Mas o problema maior da criminalidade dentro do estado de Roraima é o completo descontrole da segurança pública e um crescimento absurdo das facções criminosas dentro do estado e que controlam todo o sistema penitenciário e o processo de crimes que ocorrem contra a pessoa humana, contra o patrimônio da pessoa dentro do estado de Roraima.

Não temos uma população violenta, não é uma população de criminosos que está imigrando da Venezuela. Esse conceito ele está sendo pautado pela imprensa local a fim de tentar seduzir a população roraimense a cometer esses atos de barbárie que ocorreram ontem ou cobrar a expulsão dos venezuelanos do nosso estado.

 

 

Fonte: Rede Brasil Atual

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