Bolsonaro duvida | A fome e a desnutrição estão por todo o lado

Presidente Jair Bolsonaro afirmou, durante café da manhã com jornalistas na última semana, que as pessoas não passam fome no Brasil

Foto do filme “Histórias da Fome no Brasil” | Ministério de Desenvolvimento Social

O fogão a lenha improvisado com lata de tinta evidencia a realidade vivida por Rosângela e seus quatros filhos. “Tinha acabado o gás e eu não tinha dinheiro para comprar outro. Aí, sempre acabo usando esse fogãozinho a lenha.” Militante do MTST há oito anos, ela está na luta por uma moradia na Ocupação Roque Valente, em Embu da Artes, Região Metropolitana de São Paulo.

Com 44 anos, ela conta que a família não chega a passar fome porque recebe doações de amigos e familiares. Mas alimentação de qualidade, todo dia, já virou luxo. “Aqui é um dia ovo, outro dia uma verdurinha. A carne, a gente come só de vez em quando.”

Mentiras de Bolsonaro

Rosângela lembra indignada a afirmação errada do presidente Jair Bolsonaro de que “falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira.”

“O presidente não precisa ir longe para encontrar gente que passe fome”

“O presidente não precisa ir longe para encontrar gente que passe fome,” ela afirma com toda a propriedade.  Em bairros de Embu e em outras periferias por todo o Brasil, a fome e a desnutrição assombram cerca de 5,2 milhões de brasileiros e brasileiras, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

A fome e a desnutrição assombram 5,2 milhões no Brasil, segundo a ONU

Para os especialistas, já existem fórmulas de sucesso para reduzir a fome: os programas Fome Zero e o Bolsa Família, implementados durante o governo Lula (2003-2010). Em um de seus últimos discursos antes de entregar o cargo de presidente da FAO, que ocupa há oito anos, José Graziano afirmou que “Lula mostrou ao mundo que o compromisso e a liderança são estratégias claras para que nações possam rapidamente reduzir suas incidências de fome. E que, fazendo isso, elas podem acelerar a redução das desigualdades”.

A desnutrição no Brasil

Exemplo de como a estratégia de programas de transferência de renda têm efeito prático da redução da fome aconteceu na casa das irmãs Bruna e Keyla Costa, moradoras da zona leste de São Paulo. Cada uma tem um filho de dois anos de idade, que está em tratamento por conta de desnutrição grave.

Elas contam que, se não houvesse o auxílio do Bolsa Família, suas famílias não teriam o que comer frequentemente. De qualquer forma, a qualidade da alimentação compromete a saúde das crianças, que estão com baixo peso e baixa estatura.

Bolsonaro disse que, no Brasil, “você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas com físico esquelético”, para justificar erradamente o absurdo de que não há fome no país. Mas o que ele não sabe é que o perfil de desnutridos no mundo todo é, principalmente, medido pela estatura — e não pelo peso.

São as crianças baixinhas, que todos acham que estão bem e saudáveis, porque, afinal, seus pais são também baixinhos. Mas a dura realidade é que todos, pais e filhos, foram ou são desnutridos.

Férias com fome

Outra faceta dura de como a fome aparece no Brasil acontece durante as férias escolares. Quando as crianças não têm acesso à merenda servida nas escolas, a fome se intensifica,  já que as merendas muitas vezes são a única refeição que aqueles alunos e alunas teriam.

“O perfil de desnutrido no mundo todo é principalmente medido pela estatura”

Ameaça ao Consea

A ignorância de Jair Bolsonaro sobre o tema é tamanha, que uma de suas primeiras medidas como presidente empossado, ainda em janeiro, foi extinguir do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar) — órgão fundamental para políticas públicas de combate à fome. Felizmente, seis meses depois, o Consea foi recriado com o apoio da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão.

Negligenciar o verdadeiro perfil nutricional dos brasileiros é erro grosseiro para quem deveria estar mirando o futuro próspero do Brasil. Garantir a plena saúde de todos e todas é a base para todo e qualquer desenvolvimento de um povo. Afinal, como bem afirmou o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva: “As crianças não podem colher plenamente os benefícios da escolaridade se não obtêm os nutrientes de que necessitam; e as economias emergentes não vão atingir seu pleno potencial se os seus trabalhadores estão cronicamente cansados porque suas dietas são desequilibradas.”

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