Blocos gritam “Fora, Temer!”: O que acontece no Carnaval fica no Carnaval?

Fonte: Blog do Sakamoto

Acompanhei um rosário de blocos de Carnaval no Rio e em São Paulo. E, em todos, absolutamente todos, em algum momento, ocorreu um coro de “Fora, Temer!” por parte dos foliões. Podia faltar samba, purpurina, confete, serpentina, Pierrô, Colombina, Catuaba Selvagem, vaselina, mas tinha sempre um “Fora, Temer!” que se espalhava feito gripe.

Blocos com veganos, comunistas, bombadinhos, alternativos, hipsters, coxinhas, petralhas, feministas, da turma do centro ou das comunidades, tinha sempre um “Fora, Temer!”. A diferença era o ritmo. Segundo colegas jornalistas em Recife, por exemplo, por lá o “Fora Temer”, em ritmo de frevo, é mais alucinado do que o “Fora, Temer!” em ritmo de alguns chorinhos paulistanos.

Claro que é mais fácil entender o que leva alguém a gritar “Fora, Temer!” em um bloco do que compreender o que leva um homem hétero malhado a untar seu peito com alguma coisa brilhante e ficar parado, no meio da multidão, olhando para ver se alguém o admira.

É da natureza do Carnaval a piada, o escárnio e a ironia – e, a cada ano, há os eleitos para serem execrados.

Da mesma forma, é da natureza do comportamento de massa repetirmos algo que o grupo grita para nos sentirmos pertencente a ele e ao momento.

Por fim, é da natureza da democracia que grandes reformas, como a da Previdência, sejam apresentadas à sociedade como propostas de governo de candidatos, no período das eleições presidenciais, para que possam ser escolhidas ou rejeitadas por meio do voto. A possibilidade concreta da perda de direitos em decorrência da negação desse instrumento da democracia deixa muita gente irritada.

Há quem equipare a pessoa que grita ”Fora, Temer!” apenas num bloco de Carnaval a uma ativista de sofá. Mas o problema não é protestar num sofá ou em um bloco. Ambas ações podem causar impactos. O problema é a falta de formação política – que é a diferença entre fazer algo consciente ou se deixar levar por líderes, falsos líderes, mídia, igreja, enfim. Essa formação se adquire pela convivência com a diferença, coisa que os algoritmos das redes dificultam. Blocos de Carnaval, por outro lado, democratizam o espaço público e chamam as pessoas de volta às ruas, local original de formação da empatia e da política.

O ”Fora, Temer!” dos blocos acabou se espalhando por vários cantos do país, sendo captado pelas câmeras de TV, ouvido por jornalistas e outros formadores de opinião. Se entrou por um ouvido e saiu pelo outro, não há como saber. Isso não derruba presidente, mas ajuda a mostrar que a desaprovação do homem, por mais que esteja sendo intercalada entre uma marchinha e um samba enredo, está presente e se fazendo ouvir.

Faria ele, por bem, não achar que o que acontece no Carnaval fica no Carnaval.

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