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Bordado de Guerrilha | Ocupação Marielle Franco, em Recife, borda lutas e sonhos

5 de julho de 2018

A Ocupação Marielle Franco, em Recife, realizou no dia 29 de junho uma Oficina de “Bordado de Guerrilha”. A proposta foi elaborada por Clara Nogueira, formada inicialmente em Arquitetura e idealizadora do Projeto “Linhas de Fuga”, que sempre se mostrou sensível aos temas da luta por moradia e o direito à cidade. Nesse contexto, desde 2015, Clara realiza oficinas de bordado que possam retratar além da beleza dessa arte, mas também, narrativas femininas entremeadas às questões sociais.

Segundo a realizadora, a oficina de bordado trouxe as narrativas das mulheres da ocupação, suas vivências e, inicialmente, foi elaborado um primeiro encontro para que a rotina e as histórias surgissem num clima de coletividade e, sobretudo, respeito pelas perdas e conquistas dessas guerreiras.

“O bordado é uma forma de expressão sensível dessas vidas. É um meio de comunicação com a sociedade civil de forma a entender como é uma ocupação e que é formada por pessoas”

Essas entrevistas foram registradas e, no momento da atividade, as mulheres, inclusive as de fora da ocupação e que participaram, puderam ler, sentir esses relatos e assim, bordarem desde frases das companheiras da Ocupação Marielle Franco até interpretarem seus sentimentos por meio de desenhos.

“O bordado é uma forma de expressão sensível dessas vidas. É um meio de comunicação com a sociedade civil de forma a entender como é uma ocupação e que é formada por pessoas”, destacou Clara Nogueira. A partir dessa constatação, a metodologia e estruturação de todo trabalho foram desenhadas com as inquietações do sonho da moradia digna e das mulheres como lideranças de ocupações. Vale ressaltar que a Ocupação Marielle Franco é toda gerida por mulheres que, assim, expressam seu lugar de fala concreta e a coragem para permanecer na luta.

Clara Nogueira também realizou o mapeamento afetivo das mulheres pernambucanas que trabalham com linhas e fios. Ela criou um site onde apresenta esse trabalho e, dessa maneira, tece esperanças entre outras mulheres também: www.mulheresquetecempe.com.br .

Além disso, conforme já mencionado, a oficina foi aberta para pessoas externas à ocupação e o investimento, o quanto fosse possível, auxiliou na aquisição de linhas, na ajuda de estrutura dos bastidores e outros materiais para o trabalho coletivo. Daí nasce a expressão “bordado de guerrilha” que é bordada com o material e o tempo que se têm, encarando adversidades da mesma maneira com que as mulheres da ocupação se deparam diariamente.

Um desses relatos que se transformou em bordados foi o da senhora Alba Valério Gomes da Silva, 51 anos, que viveu uma parte no interior do estado, Taquaritinga, e, depois, na capital, Recife. Dona Alba conheceu o movimento por meio de um rapaz carroceiro — ambos também vivem da reciclagem — que a informou sobre uma ocupação no Barro, localidade de Recife. Ela saiu de uma casa de tábua e precária para o prédio no centro da cidade que abriga as guerreiras e os guerreiros da Marielle Franco.

“O meu aqui é ‘pedacinho do céu’. Meu pedacinho do céu aqui. Porque foi um milagre de Deus, foi uma bença. Pelo menos eu tô na paz. Lá a polícia invadindo direto os barracos da gente. A pessoa fica nervosa. E aqui, graças a Deus não tem isso, né? É um pedacinho do céu mesmo, aí tem paz”.

A partir dessa narrativa, uma das interpretações bordadas foi um prédio e, ao lado, a frase “um pedacinho do céu”.

Desejamos que a sociedade civil, em sua plenitude, compreenda a importância da moradia digna que é tecida a partir de uma ocupação e assim, desenhemos novos caminhos possíveis como as mulheres da Ocupação Marielle Franco, repletas de marcas e sonhos: “Mas é preciso ter sonho, sempre/ Quem traz na pele essa marca/Possui a estranha mania de ter fé na vida”.

MTST, A LUTA É PRA VALER!